Judeus no Brasil

Judeus no Brasil, a trajetória de uma aliança

Por Marcio Augusto Prates

É indiscutível a importância dos judeus para o contexto brasileiro nos dias de hoje. Mas, o que chama a atenção nessa relação não é necessariamente a presença de um povo estrangeiro no país de dimensões continentais. O que merece destaque quanto à população judaica no Brasil é a história dessa aliança, que já atravessa cinco séculos.

Hoje espalhados de norte a sul, os judeus estão no país desde o seu descobrimento. De lá para cá, a história brasileira tem se entrelaçado com a desse povo, embora o assunto seja pouco divulgado. A proposta nas próximas páginas é trazer à luz verdades desconhecidas e apontar detalhes dessa aliança tão forte e importante para ambos os lados.

Descobrimento marcado pela presença judaica

Tão grande é a relação do povo de Israel com o Brasil (e vice-versa) que é impossível lidar com o tema e não se lembrar das palavras ditas por Deus a Abraão: “Abençoarei os que te abençoarem...” (Gênesis 12.3). Verdade é que nas primeiras datações oficiais já se percebia a influência judaica na construção da história brasileira.

O próprio descobrimento do Brasil, em 1500, teve a participação do judeu Gaspar da Gama, polonês. Apesar de ter sido prisioneiro de Vasco da Gama, ele caiu nas graças do rei Dom Manuel e ganhou destaque na Coroa Portuguesa. Conhecedor de detalhes sobre as Índias, foi feito conselheiro de Pedro Álvares Cabral na expedição que chegou ao solo brasileiro.

Poliglota, Gaspar da Gama teria sido responsável pelos primeiros contatos com os índios locais. Há sugestões dando conta de que ele não seria o único de origem judaica na frota de Cabral. Possivelmente, Gonzalo Madeira, intérprete, também o fosse. Isso sem contar com o médico e astrônomo João Faras, ou Mestre João, um cristão novo (judeu convertido ao Cristianismo).

Terras arrendadas no primeiro século

O português Fernando de Noronha (Fernão de Loronha) foi outro nome de origem judaica com relevância na história do Brasil. Após o descobrimento, liderava cristãos novos (judeus convertidos ao Cristianismo) na exploração do pau-brasil. Foi o primeiro arrendatário de terras brasileiras, já que a Coroa Portuguesa permitiu que explorasse por vários anos os recursos naturais daqui.

Já nas primeiras décadas do século XVI, mais cristãos novos passaram a ter papel predominante na atividade agrícola brasileira, como na produção da cana-de-açúcar. Muitos dos engenhos teriam sido montados por eles. Mais tarde, ainda no período colonial, os judeus chegaram a dominar praticamente todo tipo de comércio na capitania de Pernambuco.

Inquisição, perseguições e mortes

De todos os momentos de que se tem registro quanto à presença judaica no Brasil, um dos mais tensos certamente foi o período da Inquisição. Através dela, judeus e outros grupos considerados hereges sofriam ferrenha perseguição da Igreja Católica. Muitos eram torturados e mortos.

A Inquisição contou com duas fases. A primeira, Medieval, não teve qualquer ligação com o Brasil, mesmo porque se deu em séculos anteriores ao descobrimento. Já a segunda, Moderna, foi mais severa e começou em 1478 na Espanha. Em Portugal, chegou em 1536 e durou 285 anos.

Como o Brasil era colônia, enfrentava as mesmas sanções da Inquisição que Portugal. A diferença é que aqui não havia os Tribunais do Santo Ofício, que julgavam e aplicavam as condenações, como prisões, torturas, tomadas de bens e mortes, inclusive à fogueira. Os casos eram enviados para lá.

A Igreja Católica visava combater o que considerava herege, como o Judaísmo. Os suspeitos deveriam negar a fé judaica (ou qualquer outra) e se converter ao Cristianismo. Judeus que aceitavam isso eram chamados cristãos novos. Muitos eram criptojudeus, ou seja, mantinham a religião às escondidas.

Brasileiros condenados

Segundo a pesquisadora e professora Anita Novinsky, somente entre os anos de 1710 e 1747, época do Ciclo do Ouro, 57 cristãos novos (judeus convertidos ao Cristianismo) foram presos e tiveram os bens confiscados pela Inquisição no Brasil. 14% teriam sido condenados à morte por fogueira.

Dos casos relatados por ela, um dos mais trágicos foi o do médico Diogo Correa do Vale, que fugiu da Inquisição de Portugal para o Brasil. Mas, em 1730, ele e o filho foram presos. Ainda que tendo insistido com a Igreja Católica que haviam se convertido ao Cristianismo, ambos foram mandados à fogueira.

Em todo o período da Inquisição, teriam sido presos na colônia nada menos do que 1076 pessoas. Os inquisidores faziam visitas constantes às terras brasileiras, a primeira em 1591, e os casos eram levados a Portugal, onde funcionavam os Tribunais do Santo Ofício.

Histórias se entrelaçam há 500 anos

Não foi apenas na época do descobrimento, em 1500, ou nos anos e décadas subsequentes que os judeus tiveram participação ativa no dia a dia do Brasil. No decorrer de mais de 500 anos, foram vários os momentos – uns mais expressivos do que outros – em que a presença judaica se mostrou um tanto relevante em terras tupiniquins. As histórias se cruzaram em todo o tempo.

O Brasil Holandês (1630-1654) é um exemplo. Este foi o período em que parte do Nordeste esteve sob o domínio da Holanda. Vários judeus aportaram aqui. Muitos vieram motivados pela liberdade religiosa. Em 1644, contavam-se 1450 deles. Na época, foi fundada a primeira sinagoga das Américas, Kahal Zur Israel, em Recife (PE), recentemente restaurada e aberta ao público.

A atuação dos bandeirantes no Brasil, do século XVI ao XVIII, também apresenta nomes de judeus entre os seus protagonistas. É o caso de Raposo Tavares (cuja mãe e madrasta eram judias, tendo sido a última vítima ferrenha da Inquisição). Ele próprio teria declarado sua base judaica. Fernão Dias Paes e Brás Leme foram desbravadores com as mesmas convicções religiosas.

Outro período importante na história do Brasil, o Ciclo do Ouro, entre os séculos XVII e XIX, foi desencadeado e por vezes marcado pela presença judaica. Para se ter uma ideia, os líderes da primeira expedição a Minas Gerais com esse intuito, em 1697, foram Garcia Rodrigues Paes (filho de Fernão Dias Paes) e Maria Garcia Betim, uma cristã nova (judia convertida ao Cristianismo).

Osvaldo Aranha, uma atuação ímpar

E o que dizer de um nome específico, o de Osvaldo Aranha? Era alguém que não tinha origem judaica nem era contemporâneo dos bandeirantes, holandeses ou mineradores aqui citados. Ainda assim, marcou de maneira profunda a relação entre o Brasil e o povo judeu. Isso porque foi o diplomata brasileiro que presidiu a assembleia geral da ONU (Organização das Nações Unidas) que, em 1947, decidiu pela criação do Estado de Israel.

País tem hoje mais de 100 mil judeus

Tendo como base dados oficiais, é relevante a atual presença de judeus no Brasil. São mais de 106 mil pessoas que assim se declaram no país, segundo o Censo Demográfico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2010. É evidente que a quantidade é inferior à encontrada em Israel ou mesmo nos Estados Unidos, onde estão as maiores concentrações.

Uma curiosidade sobre o Censo é que a região Nordeste – principal porta de entrada de judeus no Brasil – tem hoje apenas 10% da quantidade deles em comparação à região Sudeste. 

Outra estimativa, não oficial, baseada em levantamentos do sociólogo Simon Schwartzman, sugere que um universo de 400 mil brasileiros podem ter descendência judaica.

Projeto pretende divulgar verdades ocultas

Reescrever com a “tinta da verdade” a história, sem que desta vez seja suprimida ou minimizada a participação dos variados povos, raças e grupos na construção do Brasil. Este é o objetivo de um novo projeto da MCM e que tem como uma de suas ações esta reportagem sobre a comunidade judaica em terras brasileiras. Os judeus foram os escolhidos para as abordagens iniciais.

Em um segundo momento, pretende-se enfocar os negros e os índios, entre outros. Já há algumas semanas, a MCM tem lançado nos canais do Facebook vídeos em que o seu presidente, pastor José Rodrigues, conta detalhes da vinda dos judeus para o Brasil. Ele considera fundamental a divulgação destas verdades que não são conhecidas do grande público.

O trabalho inclui uma ampla plataforma de comunicação. Além da MCMPovos, de outros canais da MCM e de inserções em redes sociais, uma das frentes deverá ser a produção e distribuição, a preço de custo, de livretos periódicos com temas relacionados ao projeto. “Sem isso, não vamos conduzir o Brasil aonde Deus quer levar”, comentou pastor José sobre o projeto.

Ele entende que, conhecendo a história não contada, o Brasil poderá chegar a um lugar de libertação. Para tanto, se vale de duas citações bíblicas. A primeira (João 8:32) diz “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Já a segunda pode ser direcionada à abordagem dos judeus na colonização: “Se forem destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?” (Salmos 11.3).